G.E.T.U.H.

GRUPO ESPÍRITA TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA

O Doutor que veio do Ceará
Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti nasceu no Ceará, em 29 de agosto de 1831, filho de Antônio Bezerra de Menezes, homem abastado, dono de fazendas de criação, severo e íntegro. Comprometendo sua fortuna com o exercício da política e socorrendo amigos e parentes que se valiam de seu bom coração, o velho fazendeiro, ao ver-se insolvente, entregou aos credores o que ainda lhe restava para pagar suas dívidas. Mero administrador do que antes fora sua fortuna, dela retirava o estritamente necessário para manter a família, que assim passou da abastança às privações.
Em conseqüência, Bezerra de Menezes, ao decidir cursar Medicina, partiu para o Rio deJaneiro com minguados recursos. Ainda estudante, em sérias dificuldades financeiras, precisou da quantia de 50 mil réis (a moeda brasileira na época) para pagar a Faculdade e a moradia, cujo senhorio o ameaçava com o despejo.

 

Muito aflito, mas profundamente religioso, apelou à Deus. Poucos dias depois, um moço educado bateu à sua porta para tratar com ele algumas aulas de matemática. Bezerra detestava matemática, mas ante a insistência do visitante e sua situação desesperadora, resolveu aceitar. Combinados dia e hora para o início das aulas, o moço despediu-se deixando o pagamento adiantado: 50 mil réis. Bezerra, muito feliz, pagou suas contas e foi à biblioteca pública para preparar as aulas de matemática, mas o rapaz nunca mais apareceu.
Ao doutorar-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1856, o jovem médico passou a assinar apenas Adolfo Bezerra de Menezes.


Médico dos pobres

À semelhança do pai, Bezerra de Menezes incursionou pela política e dedicou-se a atividades empresariais, sem deixar, porém, de exercer a medicina em favor dos mais necessitados. Onde houvesse um mal a combater, lá estava o dr. Bezerra de Menezes levando ao aflito o conforto de sua palavra, o recurso de sua ciência e o auxílio de sua bolsa modesta, porém, generosa.
Nos anos de 1880, Bezerra de Menezes entrou em contato com o Espiritismo pelas mãos do dr. Carlos Travassos, que traduzira para o português O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, e que, tão logo o livro saíra do prelo, dedicara ao amigo um exemplar. Aquele que mais tarde seria conhecido como o "Médico dos Pobres" ficou empolgado pelo livro, cujo conteúdo, novo para ele enquanto homem, parecia intrigantemente conhecido ao seu Espírito.
Assim, apesar de católico, Bezerra de Menezes passou a estudar a doutrina espírita e a 16 de agosto de 1886, perante duas mil pessoas da melhor sociedade do Rio de Janeiro, que se reuniram para ouvir sua palavra sábia de médico católico eminente, político íntegro e irreprensível cidadão, proclamou sua decidida conversão ao Espiritismo.


Kardec brasileiro
Em 1883, no entanto, o ambiente espírita brasileiro era francamente dispersivo. Os Centros, onde se ministrava a doutrina, trabalhavam de forma autônoma e dentre as muitas sociedades espíritas, as únicas que mantinham a hegemonia de mando eram quatro: a Acadêmica, a Fraternidade, a União Espírita do Brasil e a Federação Espírita Brasileira. Entretanto, logo surgiram entre elas vivas discórdias. A cisão entre os"místicos", que aceitavam o Espiritismo em seu aspecto religioso, e os "científicos", que o aceitavam simplesmente pelo lado científico e filosófico, era profunda.
Homem religioso no mais elevado sentido, desde o primeiro artigo assinado, em janeiro de 1887, a pena de Bezerra de Menezes foi posta a serviço do aspecto religioso do Espiritismo. Incumbido pela Comissão de Propaganda da União Espírita do Brasil, escreveu a série Estudos filosóficos, sob o título O Espiritismo, publicada aos domingos no tradicional órgão da imprensa brasileira, O Paiz, então dirigido pelo senador Quintino Bocaiúva. Sob o pseudônimo Max, Bezerra de Menezes escreveu de novembro de 1886 a dezembro de 1893, ininterrupta e ardentemente; seus artigos marcaram a época de ouro da propaganda espírita no Brasil. Em 1894, o nome de Bezerra de Menezes foi lembrado como o único capaz de unificar o movimento espírita. Assim, alguns confrades, liderados pelo dr. Bittencourt Sampaio, resolveram convidar o eminente médico, então com 63 anos, para assumir a presidência da Federação Espírita Brasileira. Infatigável batalhador, ele desempenhou o cargo até a desencarnação, no dia 11 de abril de 1900, no Rio de Janeiro. Sua dedicação à causa espírita valeu-lhe o cognome de Kardec Brasileiro.

 

 

Godoy, Paulo Alves. Grandes vultos do Espiritismo. 2. ed.,São Paulo, Edições FEESP, 1990.